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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

CRÔNICAS JAGUARUANENSES


VENDO FIADO SIM



Certa vez um espertinho quis perguntar para Seu Moreirinha se ele vendia fiado.

O grande sábio disse recitando:

Eu vendo fiado sim

Pro finado no caixão

Pro Padim Ciço Rumão

E pra quem caga alfenim

Se você fizer pra mim

Um velho chapéu de palha

Com os ganchos da cangalha

Ou a couraça dum jaguar

Eu deixo você levar

Desta venda toda a tralha.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

CRÔNICAS JAGUARUANENSES

O ESCÁRNIO DA POLÍTICA JAGUARUANENSE



            Todo jaguaruanense que acompanha a política local, sabe que as campanhas políticas no pleito municipal são verdadeiros espetáculos de achincalhação, de abuso econômico e ações criminosas. A politicagem jaguaruanense é uma endemia metaforicamente simbolizada por câncer em processo de metástase. Quando se diz isso, não se diz sem parâmetro algum, mas sim algo histórico e enraizado no nosso consciente coletivo. Essa constatação encontra reflexo num artigo interessantíssimo escrito (pasmem!) no dia 2 de Agosto de 1925 pelo hebdomadário aracatiense A Região de propriedade do Sr. Ezequiel Silva de Menezes, dentro de uma série de reportagem denominada: Impressões de uma viagem ao Baixo-Jaguaribe – União, que traz o seguinte trecho: “Parece-nos que a administração municipal se limita a cobrar os impostos dos contribuintes e pagar aos seus funccionarios. A politicagem, que ali campeia continuamente, prejudicar o desenvolvimento de terra tão rica”. O artigo jornalístico é a visão de uma pessoa de fora que através de sua observação traçou um diagnóstico preciso ao doente (Jaguaruana). De 1925 para cá pouco se mudou no ponto de vista da politicagem. Aliás, nosso atraso urbano, social, econômico e cultura estão umbilicalmente ligados a existência desta anomalia política; mesma constatação obtida pelo autor da notícia que já completou 86 anos de sua publicação!

            As campanhas políticas de Jaguaruana são como se o município vivesse um período de trevas, os princípios constitucionais são destruídos pela prepotência dos que deviam zelá-los, a violência eclode gratuitamente de todos os cantos e o comércio de votos joga pelo ralo a essência da democracia. Além disso, a cultura das cartas fantasmas que surgem por baixo das portas nas madrugadas cálidas de nossa cidade é o sinal de um banditismo que se oculta na abjeta covardia. No ano de 2012, haverá mais um pleito e é preciso que se amadureça nesse comportamento. Os eleitores não devem tolerar e nem dar crédito a práticas imundas advindas do banditismo político.

            O progresso tão almejado pelos munícipes só se tornará corpóreo quando extirparmos a politicagem jaguaruanense e zurzirmos os arautos deste banditismo político que até hoje ainda macula nossa honra.  

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CRÔNICAS JAGUARUANENSES


INTROSPECÇÃO CITADINA

  

Jaguaruana, meu berço fulgurante, nos dias que se aproximam de seu aniversário, fiquei imbuído por uma introspecção. Bem da verdade não seria um mergulho em mim, mas é como se eu me colocasse no lugar da cidade e esboçasse uma introspecção citadina. E como em toda avaliação, ainda esta seja um tanto esdrúxula, surge inúmeras indagações que por incrível que pareça continuam sem respostas, apesar de nossa história tão longeva. Estamos à véspera de uma nova eleição municipal e esta introspecção citadina é importante ser feita por todos os cidadãos jaguaruanenses. Alguns talvez vão dizer que seja cedo fazer qualquer avaliação eleitoral, ainda mais se não há a formação de um quadro político definitiva para o embate. A estes eu digo que a introspecção não está preocupada em nomear pessoas ou denominá-las como mocinhos ou vilões, é algo mais pessoal, ou melhor, mais cidade, se assim posso me expressar. Seria o conflito do “eu”, como se este “eu” – reitero – fosse Jaguaruana.

Cada munícipe deve montar mnemonicamente o seu retrato de cidade. Isso que descrevo aqui pode parecer algo onírico, idéias alicerçadas em bases incorpóreas, cuja sustentação dilui-se ao menor confronto com a realidade. Engana-se o leitor que entender por este prisma. Quando uso a palavra introspecção, apesar do viés psicológico, a sua aplicação tem um efeito direto na esfera realística de nosso cotidiano. Particularmente, tenho pensado demasiadamente em fomentar um grupo de discussão política (sob a luz da ciência política) e de formular um documento de intenções que poderia ser assinado e registrado em cartório por todos os candidatos ao Paço Municipal, também sei que não disponho desse tempo. Por isso no momento queria sugestionar aos amigos, colegas e todos os jaguaruanenses essa introspecção tecida no silêncio de cada íntimo.

Agora de nada vai adiantar essa introspecção citadina, se a mesma adormecer na omissão que reproduzimos no dia-a-dia. Ela deve demonstrada nas ações políticas que cabem ao cidadão, na formação da opinião pública local e, sobretudo, nas plataformas políticas dos possíveis candidatos. Nesse dias festivos de aplausos e alegria, não vai custar nada a qualquer cidadão tentar – cada um do seu modo – personificar “Jaguaruana” dentro de si.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

CRÔNICA JAGUARUANENSE


Fala-se na necessidade de um deputado estadual filho da terra, contudo essa iniciativa não nasce de um dia para o outro. O problema de algumas lideranças políticas que se candidatam ao cargo é que querem ia ao céu sem a prece, ou seja, não constroem um trabalho político conciso e querem que os eleitores embarquem nas suas lutas quixotescas. Quem trabalha com política sabe que uma liderança política a nível estadual tem que aglutinar ao seu redor força política de peso. Além disso, é preciso fazer seu nome na comunidade, na cidade e na região. Quando me refiro a fazer o seu nome não é fazer assistencialismo pirotécnico e nem estar na mídia local. Inicialmente é costurar parceria com lideranças locais, ser ponte de projetos sociais entre comunidades e governo, construindo laços políticos com nomes fortes no cenário político estadual e federal. A exemplo, das escolas de samba que começam a trabalhar para o próximo desfile na quarta-feira de cinzas. Os candidatos jaguaruanenses são iguais a peru de natal morrem de véspera. Mas por quê? Ora porque acham que a política só se processa nas vésperas e nas eleições, esquecendo que a política sobrepõe o tempo e o espaço.

Um grande exemplo que simplifica isso vem de um grande político chamado Luiz Inácio Lula da Silva, quando perdeu sua primeira eleição; sabe o que ele fez? Primeiramente ele entendeu que pouca gente o conhecia, não sabiam de sua história e nem tampouco entendiam seus planos políticos. Ali nascia a Caravana da Cidadania onde ele rodou todo o país se apresentando para o povo, inclusive esteve em Jaguaruana. Nessa viagem, ele nem se apresentava como candidato, mas sim apenas como um ativista das causas sociais. Não deu outra! Isso é lógica política!

Entendo que neste momento, aliás, em todos os momentos é primordial um representante de nossa terra genuinamente filho daqui, contudo não podemos colocar qualquer um só porque se diz filho de Jaguaruana. O buraco é mais embaixo! Tem que ser uma pessoa preparada, politicamente conciliadora e, sobretudo, democrática. Uma pessoa que não precisa de pirotecnia e nem esbanjamento de dinheiro para se mostrar que é o nome certo, contudo tem que ser presente – se possível onipresente. Que apresente uma plataforma de governo coerente (o que é mais difícil) e transmita confiança! Não adianta nessas horas dizer que um deputado jaguaruanense iria resolver alguma coisa; eu duvido. Já tivemos e nem por isso nossa cidade foi lembrada e muito menos beneficiada com alguma coisa; a história está aí para provar!

sábado, 2 de julho de 2011

CRÔNICA JAGUARUANENSE


A nossa história não me deixa mentir, a cidade que hoje ostenta toda essa força produtiva e incontestável, lá atrás precisou de um componente que andava esquecido de nosso meio: a união! Quando ainda éramos Caatinga do Góis, os nossos antepassados lutaram contra patacuda comarca de Aracati que na época era um importantíssimo centro econômico da província do Ceará, pela o status de distrito de paz; era o primeiro passo para nossa emancipação. A comarca de Aracati resistiu o que pode, inclusive deu o título de distrito de paz ao Giqui com intuito de rachar e extirpar a luta. Contudo, a união deu-nos o que era merecido, Caatinga do Góis viria a se tornar distrito de paz, derrotando as vontades despóticas de Aracati. Após essa vitória gloriosa, a palavra união passou a dormir em nossas redes, passear pela Rua da Matriz e Comércio e vislumbrar ao longe a imponência da Serra D’Antas. Éramos tão íntimos da palavra união que a primeira entidade associativa que lutou pela emancipação apropriou-se do nome “União”. O objetivo era tornar-se vila (titulo da época imperial que equivaleria ao título de cidade), não foi fácil, outra vez Aracati entrou no caminho e nessa hora a união de nosso povo derrubou o gigante. Éramos vila legalmente em 1865 e nessa época já estávamos tão íntimos da palavra união que todo o povo decidiu o nome daquela vila, seria: Vila de União. O romance com a união ia se criando outros triunfos como, por exemplo, a abolição dos escravos antes do estado e do Brasil. Até que um dia, alguns conterrâneos contaminados pelo poder decidiram escorraçar a palavra união de nossa cidade, trocando-a pelo jogo politiqueiro.

Aquela Vila de União dividiu-se em dois partidos que se digladiavam pelo trono do paço municipal. Os velhos tempos de unidos já fazia parte apenas das conversas saudosas dos antigos moradores. Íamos ficando tão afastado da palavra união, que o seu nome já não figurava o nome de nossa cidade. Viramos Jaguaruana e esquecemos-nos de chamar a união para ver o novo nome. Sem a união, o atraso apoderou-se das nossas casas e aqui instalou seus tentáculos. A política bipolarizada contribuía ainda mais para que o atraso fosse se tornando uma amásia.
Não nego que sinto falta da união, ainda que nunca tenha alcançado sua estadia na minha cidade. E sei que é ela que vai nos salvar!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

CRÔNICAS JAGUARUANENSES


ODE A MINHA TERRA



                Lá o tempo é letárgico morosamente prazenteiro, empurrado pelos cantos dos galos e os sons dos batelões1. Não há pressa. O relógio, por vezes, sente-se inútil e tenta suicídio pulando da ponte do João Gomes. A vida anda de pés descalços sem se importar com os dribles da morte, toma uma cachacinha e come um sarrabulho no mercado velho. A morte senta-se na calçada e conversa com o “Sardanha” que balbucia: “Morrer é bom, né?”. As ruas de pedras toscas testemunham os estalos dos cacos dos jegues tocando o chão, os gemidos das carroças d’água, os tangidos de seus carroceiros, o leiteiro, o homem com o balaio de pão sobre a cabeça e as mulheres carregando inúmeras redes nos ombros. Os lunáticos tomam a cidade como se fossem conquistadores ibéricos, fincando suas bandeiras em nosso imaginário.

                Quem não conhece a cidade pode achar que se trata de mais uma cidadezinha esquecida no tempo, mas o que poucos imaginam e presumem é que essa cidade guarda no seu interior a força de uma locomotiva. Minha cidade assemelha-se a caatinga que se apresenta seca e aparentemente sem vida, omitindo dos olhos leigos as suas riquezas imensuráveis.


(1)Nome dado ao local do fabrico de redes de dormir, onde acontece quase todo o processo produtivo.  

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CRÔNICAS JAGUARUANENSES

JAGUARUANA
Por Oswald Barroso

Jaguaruana, antigo distrito de Aracati, denominada inicialmente Caatinga do Góes e depois União, fica localizada no chamado Vale do Jaguaribe, às margens do rio do mesmo nome. Diz-se que muitos habitantes revoltados com a mudança do nome transferiram-se para Fortaleza, onde fundaram o bairro Vila União.
O município apresenta um solo arenoso e de carrasco com vegetação de caatinga, tendo além do rio, a serra, parte da chapada do Apodi, como acidentes geográficos mais notáveis. Sua condição de município ribeirinho implica, entre outras coisas, numa alentada prática da pesca, assim como no uso da irrigação, muitas vezes movida por cataventos, que embelezam a paisagem. Sua população é predominantemente de origem indígena, miscigenada com brancos, em maior número, e com negros. A presença dos índios era significativa, existindo até pouco tempo remanescentes de tribo em lugarejos da Serra. O próprio nome do município evidencia esta presença, sendo que, em tupi-guarani, Jaguar quer dizer onça preta e Jaguaruana, os comedores de onça. A marca indígena aparece em muitos costumes, entre as quais o uso da cabaça da coité, na cozinha, preparada com tecnologia artesanal indígena.
Também é forte sua presença na culinária, através de pratos como o peixe com farinha e batata doce. Ainda, a mesma marca aparece na prática das parteiras e rezadeiras tradicionais. Os negros concentram-se até hoje no Córrego do Machado e nos Afogados. Também é citada a presença dos ciganos, que por muito tempo atravessaram a região. A pecuária e a agricultura constituem-se as atividades produtivas originais do município. No período colonial, Jaguaruana era parada para os rebanhos que se dirigiam do interior até Aracati, onde o gado era abatido nas charqueadas. Na agricultura, ao lado das roças de subsistência, Jaguaruana foi até os anos 70 uma grande produtora de algodão, contando com grandes usinas que, além de descaroçar o algodão, produziam fios, como a Usina Santana. Hoje, porém, esta produção é mínima, e o algodão que alimenta a fábrica de fios ainda existente, é na maior parte produzido no Rio Grande do Norte. Entre os distritos do município, o de Giqui era um dos maiores produtores de algodão. Outro produto importante na região foi a carnaúba, de onde se extrai a cera e a palha para fazer chapéu e outros utensílios. Mas também a carnaúba, nos últimos 30 anos, está em franca decadência. O artesanato de palha, hoje, é muito mais desenvolvido no município vizinho de Itaiçaba, ex-distrito de Jaguaruana. Também é atividade econômica tradicional em Jaguaruana a produção de farinha de mandioca, com a existência de muitas casas de farinha, que produzem ainda vários tipos de tapioca, entre as quais a seca e a molhada.

MUDANÇAS

Atualmente, amplia-se, em Jaguaruana, uma atividade agroindustrial dedicada à produção de fruta e arroz. Toda esta produção vai exportada através do porto de Mucuripe, em Fortaleza. Além disso, assim como no Aracati, o município está sendo invadido pelos criatórios de camarão que, segundo os moradores ribeirinhos, poluem as águas do rio.
Esta diversidade econômica e de etnias alimenta uma cultura rica e plural, que se expressa, em suas formas mais exuberantes, numa enorme quantidade de festas de padroeiros e movimentos religiosos que, entre outras manifestações, incluem as romarias à Serra do Cruzeiro e ainda a existência de terreiros de cultos africanos. Na sede do município, as festas principais são a da padroeira Senhora Santana, na última semana de Julho, e a festa de Nossa Senhora das Graças, na última semana de Novembro. Além disso, em cada distrito e povoado há a festa do padroeiro local: a de São José, em São José; a de Nossa Senhora da Conceição, no Giqui; a de Santa Luzia, em Santa
Luzia; a de Santa Cruz do Borges, no Borges, a de Nossa Senhora do Socorro, no Juazeiro; a de São Miguel, na Catingueira; a de Santo Antônio, no Figueiredo, a de São João Batista, nos Cardeais. Nestas festas, no geral, há quermesses e apresentação de folguedos. Também, são muito animadas as festas de São João, Santo Antônio e São Pedro, com quadrilhas e fogueiras espalhadas por todo o município e, durante a Semana Santa, a Queimação de
Judas é costume arraigado. Mas não apenas são animadas as festas religiosas, o Carnaval jaguaruanense é famoso. Até bem recentemente era feito à moda cearense, com blocos de rua, papangus, bailes em clubes e invasões de casa. Cada localidade possuía o seu bloco. O do Giqui chamava-se Viúva Virgem. Na sede do município, havia o Salão do Povo, do Epinato, onde brincava o Bloco do Povo, comandado pelo Chico Edvan, ou Chico José de Joana que, com a também famosa Anunciata, formava o casal mais popular do carnaval da cidade. Há dois anos, porém, o carnaval passou a ser feito em estilo baiano, com trios elétricos, juntando todo mundo indiferentemente, em um mesmo ambiente público.
A cultura vaqueira aparece nas vaquejadas, havendo três parques no município, com pista para derrubada e salão de forró. Marca presença, ainda, na brincadeira do boi, que tem lugar nos reisados de couro, que teve em José Lúcio, um dos seus mestres mais importantes. Atualmente, em atividade, há o reisado do Giqui, o Boi Tisnado, antigamente dirigido por Zé de Teresa e atualmente por Marigésio. E nos Cardeais, também existe um reisado, que tem por mestre Severino Batista Filho, conhecido por Grilo.
Vivíssimas estão ainda as cantorias e a embolada de coco, incluindo nomes bem conhecidos como Vem Vem e Rogaciano. Famosos, também, são
o rabequeiro Quinco Floriano, do Córrego do Machado, e o bonequeiro Garranchinho, da localidade de Afogados, um artista múltiplo que além de com bonecos trabalha com circo. Aliás, no imaginário dos antigos, é muito viva a presença do circo, particularmente do Circo Garcia, que freqüentava a região.
Até hoje, pequenos circos mambembes costumam passar temporadas nos sítios e lugarejos do município. Entre os folguedos, contam-se também os pastoris, no período natalino, e os dramas, encenados nos salões paroquiais, escolas e residências. Como parte desta cultura tradicional, vale citar ainda as brincadeiras infantis, muitos vivas no município, como as de macaca, bila, elástico, cavalinho de talo de carnaúba etc.
Numa cidade de manifestações culturais tão diversas, os tipos populares são inúmeros. Entre eles, os antigos: Dora, mulher bem singular, que andava geralmente bêbada e assustava as crianças; e o Teixeira, trabalhador braçal de compleição hercúlea, que passava na estrada cantando. Mas também os atuais, vivíssimos: o Moreirinha, ex-prefeito da cidade e delegado, notável por seu bom humor e inteligência, sendo mesmo personagem de folhetos de cordel; Zé Rapadura, um inventor, natural da localidade de Rancho do Povo, que se arrogava ter inventado o avião, antes mesmo de Santos Dumont; a Anunciata, a mais popular e antiga vedete do carnaval local, com mais de 80 anos de bloco; e Dona Zanita, rezadeira do Giqui, uma espécie da bruxa do lugar.
Ao lado destas manifestações da cultura tradicional, há na sede do município, uma vida cultural moderna relativamente movimentada, com um razoável número de artistas e criadores notadamente nas áreas da literatura, teatro e artes plásticas. Como fator de incremento dessas atividades, deve-se apontar o bom número de estudantes do município freqüentando faculdades, não só em Limoeiro, como em Mossoró e outras cidades próximas. Entre os intelectuais e artistas da cidade, cabe citar alguns. Juarezinho, um historiador local, que tem o projeto de fazer o museu da rede. Entre o pessoal do teatro, destacam-se Moacir Ribeiro (teatrólogo e poeta) e Fátima Cláudia. Nas artes plásticas Agostinho Eusébio Filho, o Criança, cuja casa é um misto de instalação e centro cultural. Suas esculturas são inspiradas na caatinga, com suas plantas e animais, a seriema, o carcará. Há ainda o Mardens, que trabalha na mesma linha que o Criança, compondo seus trabalhos com pedras, raízes e madeira. E o Moacir Dantas, pintor.
Na década de 90 se começou a fazer teatro de rua, com incentivo de cursos feitos pelo Instituto Dragão do Mar. Foi criado por Moacir Ribeiro, Igor
Ribeiro e Evaldo Melo, o Grupo Pescadores de Ilusão, e depois a Companhia
Concretizar. Entre os espetáculos criados, há inclusive muitos que têm por tema o fabrico da rede, como a canção Deixa Eu Tecer, de Sabiá Jaguaruanense, nome artístico de Moacir. A canção está incluída na peça
Jaguaruana Lugar Sagrado, Berço da Minha Poesia.
Recentemente, artistas e educadores da cidade criaram a Associação para o Desenvolvimento do Ensino Pesquisa e Extensão de Jaguaruana, que desenvolve uma série de atividades, entre os quais cursos e oficinas voltados para o ensino da arte circense, do teatro, da poesia e da cultura popular, em geral. A prefeitura, em busca de apoiar estas ações, toma algumas iniciativas, a partir de seu departamento de Cultura que tem Karol Ribeiro e Silva, como coordenador. Entre estas iniciativas, está a Jaguaruarte, semana cultural, que se realiza anualmente.
Neste cenário cultural de tradição e animação cultural, desenvolve-se emJaguaruana o artesanato de tecelagem e rede. Muitas vezes centenário, o fabrico de redes em Jaguaruana, até pouco tempo atrás, ocupava não só grande parte da população, mas até mesmo o conjunto da paisagem do município, com o labor artesanal extrapolando o espaço das casas e quintais e se estendendo até as ruas e praças. Antigamente, as redes eram vendidas especialmente para o Norte do país, preferencialmente para o Amazonas, Pará e Acre. Saiam de navio, pelo porto do Mucuripe. Conta-se que, por ocasião das secas e pestes, as redes funcionavam como urnas funerárias, levando os mortos até os cemitérios, mas que, por serem tantos, os mortos eram despejados das redes nos jazigos e elas voltavam para pegar outros. Hoje, embora já não tão absoluto, o artesanato de rede ainda dá a marca da cidade.
Entre seus artesãos, há verdadeiros artistas, como Josemar Pinheiro e Doquinha, que além de redes, trabalham criando nos teares, objetos outros, como redes-sofás, caminhos de mesa, bolsas etc. Para reunir estes artesãos, foi criada a Associação dos Pequenos Produtores de Rede de Jaguaruana.

Esse texto está registrado no Trabalho Acadêmico intitulado: Ceara: uma cultura mestiça de Oswald Barroso

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CRÔNICAS JAGUARUANENSES

SALVEM AS NOSSAS REDES!

Um projeto de lei para redução do ICMS sobre doze setores da Indústria já ronda a Assembléia Legislativa com iminência de ser aprovado com brevidade. A imprensa cearense anuncia com estardalhaço e em letras garrafais. Houve outras reduções do ICMS em diversos outros setores, inclusive no diesel utilizado pelos ônibus coletivos interurbanos, lembram? O governo tem sinalizado, ainda que muito tímido, com uma desoneração tributária e é algo que eu aplaudo com júbilo, mesmo não concordando com a forma e as prioridades que o governo vem tomando nessas reduções.
O que eu tenho ficado enfurecido é com a inércia da classe política jaguaruanense em não defender a redução do ICMS sobre a fabricação de redes de dormir. O momento atual tornou-se propício para essa reivindicação, porém não se ver ninguém nem da situação e nem da oposição mover um dedo sobre a questão. Enquanto isso a nossa típica atividade econômica vai agonizando e trilhando a extinção definitiva. Tenho pensando em mandar um ofício ao Governador para tratar do assunto, mas não tenho cacife político e minha solicitação se tornará inútil. Então convoco a classe empresarial para redigir uma carta de solicitação e exigir uma audiência com o governo. Convocando também o Prefeito, vereadores e os representantes políticos para sensibilizar o governo estadual no sentido de contemplar a rede de dormir nessas políticas tributárias de redução
É preciso desarmar os rancores políticos e todos darmos a mão em prol de nossa economia, afinal a vitória que há de vir não será de “A”, “B” ou “C” e sim de toda a Jaguaruana!   

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

CRÔNICAS JAGUARUANENSES

Foto de Mardônio Carvalho
As almas hibernam depois do meio-dia de domingo. Os cachorros não ladram, as casas se fecham e as ruas solilóquias parecem ansiar a vinda abrupta da segunda-feira. Nas cidadezinhas o primeiro dia da semana é o segundo dia; o domingo é do Senhor. Aliás, as únicas coisas a quebrar a inércia dominical eram os badalos do sino da Igreja-matriz, anunciando a missa da noite. Nisso, os cães voltam a latir pelas vias, as casas se abrem sorrateiras, as almas enfeitam-se para eucaristia e o passeio na pracinha. Ouve-se o arrastado das alpercatas, os toques dos sapatos e os estalos dos saltos, pisando nas pedras toscas do velho calçamento. A melodia das ladainhas, espalhadas pelas mãos de D. Edith no órgão, entranhavam-se nas almas que seguiam para a Matriz. Depois da missa, um passeio despretensioso pela pracinha, jogando conversa fora, paquerando as meninas tímidas e comer pipoca do Nezim. Talvez fosse para alguns aquela singeleza um tanto enfadonha e muitos vociferavam como sendo o pior dos marasmos. Porém havia algo poético naquilo e mais: aquela vida mansa e, aparentemente, inerte talvez fosse à única paz tão almejada por grandes nações!          

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CRÔNICAS JAGUARUANENSES

Fagulha de expressões lúdicas do semi-árido!

Os pés empoeirados de massapé saltitavam por entre urtigas, pés de cardeiros e carrapichos, devorando frutos de carnaúba montado num cavalo de talo. Lembrança essa que ainda escorre por dentro da mente daquele menino franzino, cabeça disforme (bem cearense) e pernas finas. Infância bendita longe das coisas contemporâneas, igualmente um índio e/ou – quem sabe – um homem primitivo. Tudo tinha uma feição imagética, até mesmo o pouco vento incorporava um tufão que dificultava os galopes do cavalo de talo por entre as veredas sertanejas. Não faltavam histórias, geralmente quixotescas, ainda que não houvesse moinhos de ventos e Dulcinéia. Sanchos e Dons Quixotes não faltavam, empunhando espadas de angicos, carnaúba e mutamba, sem armaduras e elmos.
O córrego próximo a casa do menino franzino de cabeça disforme e as penas finas era um afluente de águas turvas infestado de peixes, muçuns, sanguessugas e rodeada de uma belíssima caatinga. Cenário perfeito para meninos que eram carentes de brinquedos, mas ricos de imaginação. Pedaços de ossos tornavam-se vaquinhas e bois de uma rica fazenda; lata de sardinha, pregos, pedaços de tábuas e tampinhas de metal artesanalmente virava um conversível invejável; e quando nada mais se tinha, faziam as brincadeiras de roda, bandeirante, esconde-esconde, pega-pega, passarinho no ninho e cobra no buraco, sete pecados, cavalaria e outras infindáveis expressões lúdicas que tornavam nossa infância no semi-árido muito mais agradável.           
                Hoje a se ver os meninos franzinos se digladiando diante de um Playstation, amontoados de brinquedos de todas as espécies, mp3, IPOD, IPAD, notebook’s, percebe-se que o exercício de imaginação que contribui na capacidade cognitiva perderá alguns pontos com advento abrupto dessas novas tecnologias. Ainda que se entenda que seja o progresso dos tempos, preocupa-se a extinção das brincadeiras e brinquedos populares tão importantes no universo da cultura popular do semi-árido nordestino.