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domingo, 31 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 14

“Quero agora a licitude,
A sua paz e o seu perdão
Te peço humildemente
 Que me tire à maldição
Nessa hora tão profana
Me dando a forma humana
Te peço de coração”.

“Dei-me um pouco sua atenção
Pro que agora eu vou dizer
O feitiço monstruoso
Eu não posso desfazer
Até posso, mas não faço
Só pra servir de embaraço
E pra ver você aprender”.

“Mas isso vai perecer
Se uma pessoa bondosa
Diante de sua presença
Rezar com fé poderosa
Cada conta de um rosário
Bem defronte ao Santuário
Da Medalha Milagrosa”.

Essa saga curiosa
Que por ora chega ao fim
Nunca foi fantasiosa
Foi o que contaram a mim
Sei que sou poeta tonto
Mas a história que eu conto
Fora realmente assim.
Fortaleza, 03 de Agosto de 2010
Dia de Sol escaldante
Dedico esse cordel ao grande amigo e há tempos sumido do meu convívio social:
Francisco Antônio da Silva (Chiquinho ou Neguinho)

sábado, 30 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 13


Aquela fatalidade
Que o capeta lhe rogou
Dentro de poucos instantes
Conceição se transformou
Aparentava um mutante
Uma cena apavorante
Que até o Cão se retirou.

A pobre mulher rezou
Ao Senhor tão glorioso
Que Jesus apareceu
Com semblante luminoso:
“Ó Jesus Cristo me acuda
Eu preciso da sua ajuda
Num momento doloroso”.

“Fiquei um tanto pesaroso
Quando tomara a atitude
De acordar com Ferrabrás
Uma coisa sem virtude
Quem se une com a maldade
Prova dela a crueldade
Construindo o seu ataúde”.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 12

“Pois pague a agora o que é meu
E deixe de “nove-hora”
Busque seus panos de bunda
E pro inferno “vamo” embora”!
Ana Conceição da Luz
Gritou: “Em nome de Jesus
Ponha-se daqui pra fora”.

O capeta nessa hora
Gritando que nem leão
Praguejou para mulher
Lhe rogando a maldição:
“Ao cantar aquele galo
Tu serás mulher-cavalo
Que é pior que a perdição”.

“Andando nesse mundão
De cidade pra cidade
Procurando os sete filhos
Por toda uma eternidade
Pra aprender que com capeta
Não se faz essa mutreta
E fica na impunidade”.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 11


“Se quiser eu me rastejo,
Suplicando ajoelhada.
Me revele o paradeiro
E qual o rumo da estrada?
Certamente eu vou pagar
O que irás me revelar
Da forma mais adequada”.

“Você já tá endividada
E nem brinque com a sorte
O cruel José Morais
Já beijou a face da morte
O contrato foi cumprido
Cumpra agora o prometido
Que já lhe dei o meu suporte”.

“Dentro de mim, nasceu um corte
Com o que se sucedeu
Eu lhe dou toda razão
E lhe pago o que for seu
Mas lhe suplico piedade
Me diga a localidade
Que o nojento faleceu”.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 10

“Eu já sei quem cometeu
Esse fato vergonhoso,
Foi seu pai José Morais
Um caboclo tão maldoso
Que retirando os seus brilhos
Acabou levando os filhos
Prum lugar misterioso”.

“Mas que caboclo engenhoso!”
Disse pobre Conceição
“Onde fica o esconderijo
Daquele ente de ladrão”
Mas o capeta ao falar
Tratando de clarear
Foi dizendo a condição.

“Tenha calma Conceição
Que você tem só um desejo
A sua jura foi de morte
Que farei sem dar bocejo
Já dizer o paradeiro
Dos filhos e do fuleiro
Eu não direi o lugarejo”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 9

Procurando a filharada
Fez na casa uma revista
Percorreu todo recinto
Como um especialista
Que procura por bandido
Os filhos tinham sumido
Sem deixar nenhuma pista.

Aquela mulher simplista
Exclamava para o vento:
“A morte para o facínora!
Eu faço aqui um juramento
Em nome da minha paz
Eu quero que o Satanás
Me atenda nesse momento”.

Ao escutar aquele intento
O capeta apareceu
Perguntando pra Ceição:
“O que foi que sucedeu”?
Conceição lhe explicou
O capeta ponderou:
“Esse caso agora é meu”.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 8

E começou acontecer
Na semana do natal
O seu pai lhe procurando
Com um desejo infernal
De matar a Conceição
E toda a sua geração
Perfurando de punhal.

Conceição lá no curral
E o seu pai na residência
Massacrou o pobre Joaquim
Que não deu nem resistência
Lhe deixou todo cortado
Levando os filhos amados
Sem sentir uma clemência.

E Conceição na inocência
Dirigiu-se a sua morada
Mas ao ver a porta aberta
Fico tão desesperada
Viu somente o seu Joaquim
Envolvido de carmim
Com a sua vida extirpada.

domingo, 24 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 7

Parindo sua geração
Como quem planta semente
Tivera sete crianças
Nascidos naturalmente
E por ser mãe tão exemplar
Nunca foi de maltratar
E nem ser intransigente.

Sua família era decente
Alicerçada no amor
As lembranças de criança
Daquele tempo de dor
Já nem tinha mais na mente
O passado deprimente
Os clamores de horror.

Mas o passado, ó leitor
Ninguém pode se esquecer
Se ficar no esquecimento
Ele pode aparecer
Como uma repetição
Coitada de Conceição
Viu seu mundo perecer.

sábado, 23 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 6

Ela se tornou um jasmim
Quando o amor lhe seqüestrou
Seu Joaquim naquele instante
O coração lhe entregou
Querendo ser mais que amigo
Resolveu lhe dar abrigo
E com ela namorou.

Pouco tempo se casou
Com um homem tão bondoso
Um rapaz trabalhador
Tão viril e cuidadoso
E sua vida tão tristonha
Foi tornando-se risonha
Algo mais que fabuloso.

O caminho doloroso
Que marcara a Conceição
Aquele passado torto
Que amargou seu coração
Foi curado pelo amor
E aquele traço de dor
Tornou-se recordação.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 5

Andejou pra se acabar
Nos caminhos do sertão
A mercê de qualquer sorte
Passando por precisão
Vivia da caridade
E do pouco da bondade
Dos que tinham coração.

Pra aumentar a judiação
Que flagela a pobre vida
Conceição tava buxuda
Mas a filha foi perdida
A coitada nasceu morta
E aquela a sua vida torta
Já não tinha mais saída.

Conceição já tão sofrida
Só sonhava em ver o fim
De matar aquela angústia
De uma sina tão ruim
Mas tudo isso se acabou
Quando o seu olhar esbarrou
Com os olhos de Joaquim.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 4

Não lhe deram disciplina
Só lhe deram amargura
E tão assim que Conceição
Foi tornando-se mais dura
Revoltada e rancorosa
Que aquela menina-rosa
Já não tinha mais candura.

Diante de imensa agrura
Resolveu fugir de casa
Afastar-se da família
Voando com a própria asa
Igualmente um caboré
Foi morar no cabaré
Vivendo na noite rasa.

Mas a dor como uma brasa
Não parava de queimar
Ana Conceição da Luz
Mesmo fora do seu lar
Apanhava de cliente
Tratada como indigente
Pelo povo do lugar.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 3

Já seu pai tinha outra sina
Era malandro e ladrão
Que deflorou a própria filha
E não tinha coração
Com fama de matador
Espalhou tanto pavor
Por todo aquele rincão.

Não tivera educação
Nem pisara numa escola
Quando tinha tempo vago
Conceição pedia esmola
Parecia não ter nome
E passava tanta fome
Viciando-se na cola.

Imaginem a cachola
Dessa pobre pequenina
Que sofrendo igual Jesus
E desejava outra sina
De viver na santa paz
Deixando o que for pra trás
Uma vida mais divina.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
PARTE 2

Esse fato em que me pus
A contar para o leitor
Não tem nada de mentira
É verdade, sim senhor!
Acredite se quiser
O que viveu essa mulher
Foi uma vida só de dor.

Desconhecendo até amor
De Josefa, a genitora
Coitada de Conceição
Era muito sofredora
Porque todo santo dia
A Josefa lhe batia
Ainda era exploradora.

Pois como uma ditadora
Maltratava a tal menina
Obrigando-a cozinhar
E fazer toda faxina
Enquanto ia para o bordel
Pra dançar e tomar mel
Dá dinheiro a cafetina.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

LIRA JAGUARUANENSE

HISTÓRIA REAL DA MULHER-CAVALO OU CLAMORES DE CONCEIÇÃO
Moacir Morran

Era uma menina pobre
Que nasceu no meu sertão
Criou-se por esse mundo
Sem carinho, zelo e atenção
Conhecendo a crueldade
Dentro duma sociedade
Propulsora da opressão.

Amargando a solidão
De ter sido desprezada
Por seus pais e pelo mundo
Por ninguém quis ser criada
Decidiu ganhar o mundo
Como um pobre vagabundo
Que procura uma morada.

E assim começa jornada
De Ana Conceição da Luz
Filha de José Morais
Com Josefa de Jesus
Nascida no Seridó
No sertão de Caicó
Sentindo o peso da cruz.